Abril é, mundialmente, o mês dedicado à conscientização sobre saúde e segurança no trabalho. No Brasil, o movimento conhecido como Abril Verde ganha relevância especial em setores onde o risco não é uma possibilidade remota, mas parte da rotina, como é o caso do Field Service.
Técnicos que atuam em campo, muitas vezes em altura, sob condições climáticas adversas ou em ambientes energizados, sustentam silenciosamente a operação de setores críticos como telecomunicações, energia e infraestrutura. Ainda assim, os dados revelam um cenário que está longe do ideal.
Um retrato que preocupa
Segundo dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, iniciativa do Ministério Público do Trabalho em parceria com a Organização Internacional do Trabalho, o Brasil registra centenas de milhares de acidentes de trabalho por ano.
Em 2023, foram mais de 612 mil acidentes notificados, com milhares de afastamentos e mais de 2.500 mortes relacionadas ao trabalho.
Setores diretamente ligados às operações de campo, como construção, eletricidade e telecomunicações, aparecem de forma recorrente entre os mais críticos.
Esses números, embora expressivos, ainda podem ser subestimados. A subnotificação segue sendo um desafio estrutural, especialmente em atividades descentralizadas e com equipes distribuídas, como no Field Service.
O risco invisível das operações de campo
Diferente de ambientes industriais controlados, o Field Service ocorre em cenários imprevisíveis.
Um técnico pode iniciar o dia em um centro urbano e, poucas horas depois, estar em uma área remota, exposto à riscos elétricos, trabalho em altura, trânsito, condições climáticas adversas, pressão por tempo e produtividade.
Essa combinação cria um ambiente onde o erro humano, a falha de processo ou a ausência de prevenção podem ter consequências imediatas e graves.
E é justamente nesse ponto que o Abril Verde deixa de ser apenas uma campanha e passa a ser um chamado à ação.
A virada: da reação à prevenção inteligente
Nos últimos anos, empresas mais maduras têm promovido uma mudança estrutural na forma de lidar com segurança.
A lógica reativa, agir após o acidente , vem sendo substituída por modelos baseados em análise de dados, monitoramento em tempo real, padronização de processos, cultura organizacional forte.
Tecnologias como IoT, checklists digitais e sistemas de gestão de campo permitem antecipar riscos e reduzir falhas operacionais.
Mas especialistas são unânimes: tecnologia, por si só, não resolve.
Sem cultura, treinamento contínuo e liderança ativa, qualquer ferramenta se torna apenas um recurso subutilizado.
Segurança como valor, não como protocolo
Há uma mudança em curso, ainda desigual, mas irreversível.
Empresas que tratam segurança como valor estratégico, e não como obrigação normativa, apresentam menor índice de acidentes, maior engajamento das equipes e ganhos consistentes de produtividade.
No contexto do Field Service, isso significa reconhecer que o técnico em campo não é apenas um executor de tarefas, mas o elo mais sensível da operação.
Sua segurança impacta diretamente a continuidade do serviço, a reputação da empresae, sobretudo, vidas.
Abril Verde: mais do que conscientização
O Abril Verde cumpre um papel essencial ao trazer visibilidade a um tema que, muitas vezes, só ganha destaque diante de tragédias.
Mas sua verdadeira força está na capacidade de provocar mudança contínua.
O posicionamento necessário
No cenário atual, falar de crescimento, inovação e expansão sem falar de segurança é ignorar a base que sustenta qualquer operação.
O avanço do Field Service no Brasil, impulsionado por conectividade, energia e infraestrutura, exige maturidade equivalente na gestão de riscos.
E isso passa, inevitavelmente, por decisões estratégicas. A linha que separa um dia comum de uma ocorrência grave pode ser tênue , especialmente no campo.
O Abril Verde nos lembra que segurança não pode ser tratada como estatística, nem como formalidade.
Ela é, acima de tudo, uma escolha diária.
Uma escolha que define não apenas resultados, mas responsabilidades.
E, em última instância, o valor que cada empresa atribui à vida.
Por Lara Brum
Jornalista com DRT em Sorocaba (SP)